Abdias Nascimento é celebrado no 65º aniversário do African Studies Center – Honrando um legado de ativismo e pensamento negro
Por Leonora Souza Paula*
O African Studies Center (ASC) da Michigan State University (MSU), uma instituição líder em estudos africanos nos Estados Unidos e no mundo, comemora seu 65º aniversário com uma celebração que põe em evidência o alcance global do ativismo e do pensamento negros. Entre os homenageados está Abdias Nascimento, o renomado dramaturgo, professor, artista visual, ativista e autor cujas contribuições para a consciência negra e para os diálogos transnacionais sobre raça continuam marcantes em todo o mundo.
Engajamento diaspórico
Um dos destaques da celebração foi uma palestra proferida por Eliza Larkin Nascimento, cofundadora e diretora do Instituto de Estudos e Pesquisas Afro-Brasileiras (IPEAFRO). Sua palestra se concentrou na vida e no legado de Abdias Nascimento e na importância do engajamento diaspórico na formação de sua arte e ativismo. Ela destacou o impacto multidisciplinar de Abdias no teatro brasileiro, na organização política negra e nos diálogos transnacionais sobre autodeterminação para povos de ascendência africana. Como ela destacou, o trabalho de Abdias incorpora um rico arquivo de epistemologia diaspórica que continua sendo uma referência global para movimentos de libertação.
Explorando o Projeto de Pesquisa da Diáspora Africana
Durante sua visita, Nascimento também explorou materiais da Coleção Especial do Projeto de Pesquisa da Diáspora Africana, uma iniciativa de arquivo significativa na MSU. O Projeto de Pesquisa da Diáspora Africana (1987-2003) foi criado pela professora de sociologia da MSU Ruth Simms Hamilton, que desempenhou um papel fundamental no recrutamento e na orientação de alunos de pós-graduação na área de Estudos da Diáspora Africana. Hamilton também editou o boletim informativo Conexões (1987-1994), que se concentrou nas conexões culturais e geográficas entre a África e sua diáspora global. O trabalho de Hamilton lançou as bases para uma série de estudos sobre as complexas trocas transnacionais que definiram os movimentos intelectuais e artísticos negros. Ao explorar o arquivo, Nascimento destacou as conexões dinâmicas entre intelectuais negros baseados na América Latina e na África, bem como acadêmicos americanos que participaram de um movimento crucial para consolidar o campo agora estabelecido dos Estudos da Diáspora.
Como Nascimento observou, o Projeto de Pesquisa foi notavelmente bem-sucedido em convidar figuras-chave para o campus, incluindo representantes do Brasil. Uma acadêmica particularmente importante foi Luiza Bairros, que atuou como ministra da Secretaria de Promoção da Igualdade Racial do Brasil de 2011 a 2014 e foi coautora da História Geral da África da UNESCO. Bairros conduziu sua pesquisa de doutorado em sociologia na Michigan State University de 1994 a 1997, sob a orientação de Hamilton.
Celebrando as contribuições artísticas de Abdias Nascimento
As contribuições artísticas e intelectuais de Abdias Nascimento foram ainda mais reconhecidas na exposição Project a Black Planet: The Art and Culture of Panafrica, que ocorreu no Art Institute of Chicago, de 24 de dezembro a 25 de março. A exposição multimídia focou nos pensadores pan-africanistas e em sua profunda influência na arte e cultura globais ao longo do século passado. O curador, Antawan I. Byrd, observou que, como “uma mostra centrada na circulação de ideias”, os vários significados do pan-africanismo devem ser compreendidos mapeando as rotas e trânsitos hemisféricos que forjaram caminhos de memória em direção a um futuro de interconexão.
Quilombismo e pensamento da diáspora negra
O tema central da exposição foi a teoria de Abdias sobre o quilombismo. Os curadores posicionaram o quilombismo como um dos movimentos mais influentes do século XX, reconhecendo seu papel na imaginação de um futuro emancipatório nas comunidades negras globais. Ao conceituar parte da exposição através das lentes do quilombismo, os organizadores ressaltaram o papel central de Nascimento na formação de paisagens intelectuais e culturais negras contemporâneas, que se estendem por várias tradições e territórios em um processo contínuo de reinvenção.
Olhando para o futuro: pan-americanismo
Ao celebrarmos o 111º aniversário do nascimento de Abdias Nascimento, em 14 de março, novas abordagens para sua obra continuam a surgir. Isso é efetivamente ilustrado pela nova estrutura conceitual do pan-amefricanismo desenvolvida pela curadora do MASP, Amanda Carneiro. Em diálogo com o conceito de amefricanidade de Lélia Gonzalez, que enfatiza a constituição afro-indígena das Américas e o repertório pan-africano de ideias, o pan-amefricanismo reconhece os princípios anticoloniais e descoloniais presentes nas extensas contribuições intelectuais de Abdias. Neste contexto, o Pan-Amefricanismo de Carneiro reposiciona Abdias como uma figura central nas discussões contemporâneas sobre abordagens hemisféricas à negritude e o discurso em evolução em torno das geografias e epistemologias interconectadas da diáspora.
*Leonora Souza Paula é professora Assistente de Artes e Humanidades na Michigan State University. Sua pesquisa atual examina o papel da imaginação espacial negra na reivindicação da literatura e da cultura como uma forma de preservação do patrimônio e reparação epistêmica. Leonora é membro do American Council of Learned Societies, do Research Institute for Structural Change, do Human Rights Center da University of California, Berkeley School of Law e da Vital Voices Global Partnership.
Este artigo foi escrito para a edição 158 do boletim do WBO, de 21 de março de 2025. Para ser assinante e receber gratuitamente, toda semana, notícias e análises como esta, basta inserir seu e-mail no campo indicado.